Uma família fugindo da seca
Vidas Secas começa no meio do caminho, o que já diz muito sobre o livro inteiro: não há começo heroico, só uma família de retirantes andando pelo sertão, cansada, numa espécie de letargia que só chuva de verdade resolve. Fabiano, a mulher Sinha Vitória, os dois meninos sem nome e a cachorra Baleia fogem de mais uma seca, carregando o pouco que sobrou depois que o gado morreu e a terra rachou.
A fome nessa travessia é tanta que a família acaba matando e comendo o papagaio que levavam de estimação, um bicho que conversava com eles e que, àquela altura, virou a única comida disponível. É uma cena curta, quase sem comentário do narrador, mas que já entrega o tom do romance inteiro.
A família encontra uma fazenda abandonada, um lugar ermo, quase sem vizinho por perto, e decide se instalar ali. Fabiano passa a trabalhar como vaqueiro pro dono das terras, que vive longe e aparece pouco. É o início de uma rotina que parece estável, mas que já nasce sabendo que vai acabar.
