15 minutos
Capa do resumo de Torto Arado

Ficção · 15 min

Torto Arado

Itamar Vieira Junior · 2019

Para quem é

Para quem gosta de romance brasileiro contemporâneo e quer entender a história de gente do campo, de fé e de luta pela terra. Serve também para estudantes e professores que querem discutir pós-abolição, desigualdade rural e memória.

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3 ideias pra levar

1

Quem conta uma história decide o que fica de fora, e por isso várias vozes sobre o mesmo fato aproximam o leitor da verdade.

2

Segundo o livro, a fé e os saberes locais organizam a vida da comunidade num lugar onde o Estado quase não aparece.

3

A voz do encante dá à luta por terra um tamanho histórico, ligando o presente a séculos de resistência.

“
Ser livre no papel não basta quando o teto, a roça e a proteção ainda dependem do patrão.
Uma ideia de Torto Arado, nas palavras do 15 minutos

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Um sertão com nome e dívida

Torto Arado se passa no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, numa fazenda chamada Água Negra. É um mundo de roças pobres, rios que enchem e secam, casas de barro e gente que vive da terra sem ser dona dela. O livro cobre muitas décadas e acompanha uma família negra que descende de pessoas escravizadas e que, mesmo depois da abolição, continua presa à lógica da fazenda.

A história é contada por três vozes, em três partes. As duas primeiras são de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, e a terceira é de uma entidade espiritual do jarê, religião típica da Chapada. Essa estrutura dá ao romance um ar de coro: cada narradora enxerga o mesmo mundo por um ângulo e acrescenta o que a outra não sabe.

É uma obra que mistura realismo social e encantamento. A fome, o trabalho pesado e a falta de documento convivem com rezas, cura e presença de espíritos. Isso permite que o leitor entenda a vida local por dentro, sem folclore de cartão-postal.

A faca na mala da avó

A cena que abre o livro e o move até o fim é de infância. As duas meninas, ainda pequenas, mexem escondidas numa mala da avó, Donana, e encontram uma faca envolta em panos. Fascinadas, brincam com o objeto, e algo acontece: uma das irmãs sai ferida, e a outra, assustada, fica para sempre com a lembrança do que viu e do que não contou.

A consequência é que Belonísia perde a língua. Dali em diante, ela fala pouco, e Bibiana passa a ser quem fala por ela, enquanto a irmã desenvolve outras formas de se comunicar. A faca vira símbolo central: instrumento de corte, objeto de família, lembrança da violência que acompanha aquela gente.

O livro não precisa de explosões para ser forte. A força vem do silêncio que aquela cena criou entre as duas e do modo como o mistério dela atravessa décadas de convivência.

Há quem veja nessa abertura uma imagem do próprio país: uma ferida antiga, de origem pouco falada, que moldou a vida de gerações e que cada pessoa carrega à sua maneira. A criança aprende cedo que certas coisas não se perguntam, e esse costume de calar é parte do que o romance vai desmontar.

Duas irmãs, uma voz dividida

Bibiana e Belonísia são muito diferentes. Uma é curiosa, quer saber, perguntar e mudar de lugar. A outra é firme, ligada à terra, ao trabalho de roça e à convivência com os animais. Mesmo diferentes, elas se completam: quando uma não pode falar, a outra fala, e quando uma silencia, a outra preenche.

A divisão de narradoras traz uma ideia importante: quem conta uma história decide o que fica de fora. As lacunas de uma são preenchidas pela outra e, no fim, pela voz espiritual. Para o leitor, é como ouvir uma família inteira contar a mesma história, cada um do seu jeito, e entender que a verdade fica no encontro das versões.

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Sobre Itamar Vieira Junior

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, na Bahia, em 1979. É geógrafo, doutor em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia e trabalha com regularização de territórios quilombolas. Antes de Torto Arado, publicou o livro de contos Dias, em 2012, e o romance A Oração do Carrasco, em 2017. Torto Arado, lançado no Brasil em 2019, recebeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Leya, em Portugal, e vendeu muito dentro e fora do país.

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Categoria:
Ficção