Um sertão com nome e dívida
Torto Arado se passa no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, numa fazenda chamada Água Negra. É um mundo de roças pobres, rios que enchem e secam, casas de barro e gente que vive da terra sem ser dona dela. O livro cobre muitas décadas e acompanha uma família negra que descende de pessoas escravizadas e que, mesmo depois da abolição, continua presa à lógica da fazenda.
A história é contada por três vozes, em três partes. As duas primeiras são de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, e a terceira é de uma entidade espiritual do jarê, religião típica da Chapada. Essa estrutura dá ao romance um ar de coro: cada narradora enxerga o mesmo mundo por um ângulo e acrescenta o que a outra não sabe.
É uma obra que mistura realismo social e encantamento. A fome, o trabalho pesado e a falta de documento convivem com rezas, cura e presença de espíritos. Isso permite que o leitor entenda a vida local por dentro, sem folclore de cartão-postal.
