Um médico na pior rua do país
Gabor Maté passou mais de uma década como clínico geral no Portland Hotel Society, uma clínica e conjunto de moradias no Downtown Eastside de Vancouver, um dos bairros com maior concentração de dependência química, pobreza extrema e doença mental de toda a América do Norte. Os pacientes dele viviam em quartos minúsculos, muitos sem carteira assinada há anos, sustentados por benefício social ou por bico, e carregavam décadas de sofrimento acumulado antes mesmo de tocar numa droga pela primeira vez.
O livro nasce desse consultório, não de uma biblioteca. Maté descreve rotinas de atendimento, corpos marcados por infecção e overdose, e uma equipe médica que aprendeu, na prática, que gritar 'para de usar' nunca funcionou com ninguém ali. Ele não nomeia pacientes reais de forma identificável, mas usa o padrão de histórias que via repetido todo dia pra construir o argumento do livro.
É importante entender esse ponto de partida: o livro inteiro é escrito na primeira pessoa de quem examinou, prescreveu, e muitas vezes falhou em ajudar. Não é teoria de gabinete, é relato de quem trabalhou anos numa das ruas mais duras do continente.
