Um projeto de nação escrito em forma de romance
Iracema saiu em 1865, quarenta e três anos depois da independência do Brasil, numa época em que o país praticamente não tinha uma mitologia própria pra contar sobre a própria origem. A Europa tinha a Ilíada, tinha a Eneida, tinha heróis fundadores cantados em verso havia séculos. O Brasil, recém-separado de Portugal, não tinha nada parecido, e José de Alencar decidiu resolver esse problema sozinho, com a própria caneta.
Isso não é força de expressão. Alencar fazia parte do romantismo, numa vertente chamada indianismo, que escolheu o indígena brasileiro pra ocupar o lugar do herói clássico europeu nas outras literaturas. Em vez de um herói fundando Roma, o Brasil ganhava uma lenda de amor fundando, em ficção, o território onde hoje fica o Ceará.
Vale ler Iracema sabendo disso desde a primeira página, não é só um romance de amor triste, é um projeto deliberado de dar identidade literária a um país jovem. O resto deste resumo conta a história em poucas seções, sem medo de contar o final, porque o que interessa de verdade aqui é o que esse projeto revela, e também o que ele esconde.
