Um defunto que resolveu escrever a própria vida
O livro começa de um jeito que ninguém esperava em 1881: quem está contando a história já morreu. Brás Cubas escreve suas memórias depois de falecer, dedicando a obra ao verme que primeiro roeu as frias carnes dele. É uma piada de mau gosto e, ao mesmo tempo, o maior acerto do romance.
Escrever como defunto muda tudo. Um vivo ainda precisa se cuidar, poupar a vaidade de quem lê, disfarçar um pouco de si mesmo. Um morto não deve satisfação a ninguém, então Brás Cubas conta a própria mesquinhez sem vergonha nenhuma, quase com orgulho de ser sincero até no que é feio.
Esse narrador também interrompe o próprio texto o tempo inteiro, conversa direto com quem lê, pula capítulo quando bem entende. É como se alguém contasse a vida numa roda de bar, misturando gracejo com confissão, sem nenhum compromisso de linearidade ou de fazer bonito.
