15 minutos
Capa do resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Ficção · 15 min

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Machado de Assis · 1881

Para quem é

Pra quem gosta de ler clássico brasileiro sem enrolação e quer entender por que Machado de Assis é tão citado até hoje. Serve também pra quem quer pensar sobre privilégio, egoísmo disfarçado de virtude e a diferença entre errar com rede de proteção e errar sem nenhuma.

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3 ideias pra levar

1

Privilégio não é ausência de erro, é ausência de consequência pelo mesmo erro.

2

Uma filosofia complicada muitas vezes só existe pra dar nome bonito a um egoísmo simples.

3

A forma de contar uma história revela tanto sobre quem narra quanto os fatos que ela esconde.

“
Quem nunca perde nada em casa acha, mais tarde, que também não deveria perder nada lá fora.
Uma ideia de Memórias Póstumas de Brás Cubas, nas palavras do 15 minutos

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Um defunto que resolveu escrever a própria vida

O livro começa de um jeito que ninguém esperava em 1881: quem está contando a história já morreu. Brás Cubas escreve suas memórias depois de falecer, dedicando a obra ao verme que primeiro roeu as frias carnes dele. É uma piada de mau gosto e, ao mesmo tempo, o maior acerto do romance.

Escrever como defunto muda tudo. Um vivo ainda precisa se cuidar, poupar a vaidade de quem lê, disfarçar um pouco de si mesmo. Um morto não deve satisfação a ninguém, então Brás Cubas conta a própria mesquinhez sem vergonha nenhuma, quase com orgulho de ser sincero até no que é feio.

Esse narrador também interrompe o próprio texto o tempo inteiro, conversa direto com quem lê, pula capítulo quando bem entende. É como se alguém contasse a vida numa roda de bar, misturando gracejo com confissão, sem nenhum compromisso de linearidade ou de fazer bonito.

Um menino criado pra achar que o mundo lhe devia algo

Brás nasce numa família rica do Rio de Janeiro, filho único cercado de mimo. A mãe cede a todo capricho, o pai sonha grandeza pro herdeiro, e ninguém ali ensina o menino a esperar, a perder ou a dividir. Ele cresce acreditando que birra sempre funciona, porque, na prática, sempre funcionou.

Esse tipo de criação parece distante, mas basta olhar o filho de patrão que nunca ouviu um não de verdade em casa: quando a vida finalmente cobra a conta, na faculdade ou no primeiro emprego, a decepção dói mais forte justamente porque nunca doeu antes.

O narrador reconhece isso sem culpa, quase com graça: fala da própria formação como quem descreve um bicho de estimação mimado demais. Não existe arrependimento sincero, só a constatação divertida de que aquele tipo de infância produz adultos exatamente como ele se tornou.

O emplasto: um remédio pra salvar a humanidade e a própria vaidade

O pai de Brás sonha alto: quer que o filho invente um emplasto, um remédio de aplicar na pele, capaz de curar melancolia e garantir fama eterna ao sobrenome da família. É um projeto grandioso disfarçado de ciência, mas que serve, no fundo, só pra alimentar orgulho de família.

Brás carrega essa obsessão a vida inteira, tentando concluir o tal invento entre um amor e outro, sem nunca priorizar de fato o trabalho. É o tipo de meta que todo mundo carrega no bolso, aquele projeto pessoal, aquele curso, aquele negócio que sempre fica pra depois de resolver outra coisa mais urgente.

No fim, o emplasto nunca sai do papel de verdade, e essa é a piada mais amarga do livro: uma vida inteira gasta em nome de um projeto que serve mais pra dar sentido às conversas de bar do que pra realmente mudar a vida de alguém.

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Sobre Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839, filho de um pintor mulato e de uma lavadeira portuguesa, e foi praticamente autodidata. Trabalhou boa parte da vida como funcionário público no Ministério da Agricultura, ao lado da carreira de escritor, jornalista e crítico literário. Em 1897 fundou e se tornou o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, cargo que ocupou até morrer, em 1908. Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881, é considerado o marco em que sua escrita mudou de rumo, abandonando o romantismo em favor de uma ironia mais afiada.