A médica que escolheu ficar com quem ia morrer
Na faculdade de medicina, o combinado é quase silencioso: o médico existe pra vencer a doença, e morte é sinônimo de derrota. Ana Claudia sentiu isso na residência, vendo colegas evitarem o quarto do paciente terminal. Reparou que ninguém ficava, todo mundo passava rápido, anotava no prontuário e saía. Ela começou a se perguntar o que aconteceria se alguém simplesmente ficasse.
Foi assim que foi parar na geriatria e, dali, nos cuidados paliativos, a especialidade que cuida de quem não tem mais chance de cura, mas continua tendo direito a cuidado. Pra muita gente na medicina isso soa como desistir. Pra ela, é reconhecer que existe trabalho médico sério a fazer mesmo sem chance de cura: cuidar da dor, do medo e da dignidade de quem está morrendo.
Essa escolha é o fio que puxa o livro inteiro. Ana Claudia não escreve como quem estuda a morte de fora, escreve como quem trocou de lado, do time que luta contra ela pro time que acompanha de perto. Esse deslocamento dá ao texto um tom mais de relato pessoal do que de manual técnico.
