O vácuo geopolítico e a ilusão do controle global
Durante a maior parte do século vinte, o equilíbrio internacional dependia de blocos de poder bem definidos e de uma liderança hegemônica clara. Seja pelo domínio econômico norte-americano ou pelos acordos multilaterais construídos após grandes guerras, havia uma estrutura reconhecível de tomada de decisões globais. Ian Bremmer aponta que esse arranjo institucional simplesmente ruiu, dando lugar a uma era de vácuo geopolítico que ele consagrou como o mundo G-Zero.
Nesse novo cenário, nenhuma potência isolada, nem os Estados Unidos, nem a China e nem a União Europeia, possui a capacidade financeira, a autoridade moral ou a vontade política necessária para liderar uma agenda global coerente. O resultado prático é uma governança fragmentada, onde instituições multilaterais tradicionais como a ONU ou a Organização Mundial da Saúde parecem lentas e impotentes para resolver dilemas que desconhecem fronteiras territoriais.
Para o cidadão brasileiro, acostumado a lidar com a instabilidade de preços e notícias de conflitos distantes que encarecem o óleo de cozinha e o litro da gasolina no posto da esquina, o G-Zero não é uma abstração teórica. Trata-se da dura realidade de viver em um planeta sem piloto, onde os riscos navegam livremente entre continentes sem que haja um comitê central capaz de conter o avanço das crises.
