Um médico que não acreditava em nada disso
André Luiz, narrador e personagem central de Nosso Lar, é apresentado como um médico brasileiro, do Rio de Janeiro, que viveu como muita gente vive: focado no trabalho, cético em relação a religião e convencido de que a vida acaba quando o coração para. Para a doutrina espírita, ele é o espírito que teria ditado o livro inteiro a Chico Xavier, num processo chamado psicografia.
Antes de adoecer, ele é descrito como alguém que tratava o corpo como máquina e a alma como assunto de quem tem tempo sobrando. Essa descrença franca importa pra história porque é justamente ela que vai bater de frente com o que ele encontra do outro lado: uma organização inteira que pressupõe exatamente aquilo que ele nunca levou a sério.
O livro usa esse contraste como motor da narrativa inteira. Quanto mais materialista o personagem era em vida, maior é o choque de reorganizar a própria cabeça depois de morto, e é esse processo de reaprendizado que Nosso Lar acompanha capítulo a capítulo.
