O leilão que abre o livro: Lagos, 1444
Gomes começa o livro não no Brasil, mas num cais em Portugal, na cidade de Lagos, no ano de 1444. Ali, um grupo de pessoas trazidas à força do litoral africano é colocado em leilão diante da corte e da população local. Quem registra a cena é o cronista Gomes Eanes de Zurara, funcionário da coroa portuguesa, cuja descrição virou uma das primeiras narrativas escritas sobre esse tipo de comércio rumo à Europa.
O autor escolhe essa cena como ponto de partida porque ali nasce, de uma vez, o mecanismo que vai se repetir por quase quatro séculos: gente sequestrada, separada da família, tratada como mercadoria e vendida ao maior lance. Zurara descreve choro e súplica na hora da venda, mas também tenta justificar o ato como um bem espiritual, argumento que a Igreja e a coroa repetem sempre que precisam legitimar o negócio.
