Cícero contra Catilina: o dia escolhido pra abrir o livro
Mary Beard não começa em 753 a.C., com Roma sendo fundada. Ela abre o livro em 63 a.C., dentro do Senado, com o cônsul Cícero de pé, acusando o senador Catilina de tramar um golpe contra a república. A cena mostra Roma no auge da própria maquinaria política, com regras, rivalidades e um sistema de poder que já rodava havia quinhentos anos antes daquele dia.
A escolha é quase uma provocação: contar a história de trás pra frente, partindo do momento em que Roma já era a Roma que reconhecemos, pra só depois voltar e explicar como ela chegou ali. É como abrir a biografia de alguém pelo dia da aposentadoria, antes do nascimento: o leitor já sabe o resultado, e cada capítulo seguinte ganha outro peso.
Catilina perde, foge, morre em batalha, e Cícero é aclamado como pai da pátria. Mas essa conspiração planta uma dúvida que atravessa o livro inteiro: quase tudo que sabemos sobre aquela crise vem da retórica do próprio Cícero, o homem que tinha todo interesse em parecer o salvador da história.
