Dormir de olhos abertos
Para De Mello, quase todo mundo passa a vida inteira numa espécie de sono psicológico, mesmo de olhos bem abertos. A pessoa pega o ônibus lotado das seis e meia, trabalha o dia inteiro, volta pra casa e repete tudo no dia seguinte, sem nunca perceber o que sente de verdade nesse trajeto. Segundo o autor, isso não é preguiça nem falta de inteligência: é condicionamento, o hábito de reagir sempre do mesmo jeito às mesmas situações sem examinar se aquela reação ainda faz sentido.
Despertar, no vocabulário do livro, não é um estado raro reservado a monge isolado no topo de uma montanha. É enxergar com clareza o que sempre esteve na sua frente e que o automatismo do dia a dia deixou invisível: o motivo real por trás da irritação com um colega de trabalho, ou da vontade repentina de comprar algo que você nem precisava até ver a vitrine.
De Mello insiste que a maioria prefere continuar dormindo, porque acordar dói: exige admitir que boa parte do sofrimento diário é fabricada pela própria cabeça, não imposta de fora. Um exemplo comum por aqui é a discussão que estoura no grupo de WhatsApp do bairro por causa de uma mensagem mal escrita, quando a pessoa reagiu ao que imaginou que o vizinho quis dizer, não ao que ele escreveu.
