15 minutos
Capa do resumo de Confissões

Espiritualidade · 15 min

Confissões

Santo Agostinho · 397

Para quem é

Pra quem já tentou mudar um hábito e sentiu a vontade travar contra a própria repetição, e pra quem tem curiosidade de entender por dentro a cabeça de um dos pensadores mais citados do Ocidente, num relato cheio de dúvida, tropeço e busca.

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3 ideias pra levar

1

No roubo das peras, Agostinho percebe que não queria as frutas: queria o gosto de transgredir junto com os amigos.

2

Para Agostinho, largar um hábito antigo não trava por falta de decisão, e sim porque duas vontades dentro da mesma pessoa puxam pra lados opostos.

3

Agostinho observa que sabe o que é o tempo enquanto ninguém pergunta, mas, na hora de explicar, a certeza escapa e sobra a pergunta.

“
Agostinho conta que as preces e conversas de Mônica pareceram perdidas por quase duas décadas, até a conversão que ela tanto esperava.
Uma ideia de Confissões, nas palavras do 15 minutos

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Um bispo de quarenta e seis anos revirando a própria juventude

Confissões foi escrito por Agostinho já bispo de Hipona, cidade no norte da África, por volta do ano 397. É um livro estranho de classificar: não é bem uma autobiografia como a gente conhece hoje, porque o texto inteiro é escrito como se fosse uma conversa direta com Deus, contando uma vida cheia de erro, ambição e volta por cima. Por isso costuma ser chamado de primeira autobiografia do Ocidente no sentido moderno.

Seguindo o costume da época, o menino Agostinho virou catecúmeno ainda pequeno: a mãe já tinha marcado ele com o sinal de quem se prepara pra entrar na fé, mas sem batizar de verdade. Batismo, naquele tempo, podia esperar: vive a vida, erra o que tiver que errar, e batiza depois. Foi exatamente isso que Agostinho fez, só que levou décadas.

O livro tem treze partes. As nove primeiras contam a vida dele até a conversão e a morte da mãe. As quatro últimas viram reflexão filosófica sobre memória, tempo e a criação do mundo. Esse resumo foca na história, mas passa também pelas ideias mais famosas da segunda metade.

O menino que roubou peras sem fome

Uma das cenas mais citadas do livro acontece quando Agostinho tinha uns dezesseis anos. Ele e um grupo de amigos invadiram um pomar de peras à noite, não porque estivessem com fome, ele mesmo lembra que tinha peras melhores em casa, e não por pobreza. Colheram uma quantidade enorme, deram a maior parte pros porcos e comeram só um pouco.

O que incomoda Agostinho, escrevendo décadas depois, não é o roubo em si, é descobrir que ele gostou do próprio erro só porque era proibido e porque estava em grupo. Sozinho, ele garante que não teria feito aquilo. A festa era o risco compartilhado, a cumplicidade de rir depois com os amigos de uma travessura sem sentido nenhum.

Dá pra reconhecer esse mecanismo numa roda de adolescente hoje: pichar um muro, bagunçar no fundo do ônibus escolar, não porque alguém queira aquele resultado, mas porque fazer junto, escondido, dá uma emoção que sozinho não dá. Agostinho usa a lembrança pra perguntar: por que a gente às vezes escolhe errar só pelo gosto de transgredir?

Mônica, a mãe que não desistiu

A mãe de Agostinho, Mônica, aparece o livro inteiro como uma presença constante. Cristã convicta, casada com um homem de temperamento difícil, ela passou a vida adulta torcendo, rezando e insistindo, com a discrição que dava pra uma mulher da época, pra que o filho deixasse o estilo de vida que ela reprovava.

Um bispo, contam os relatos que Agostinho registra, disse a ela numa época de desespero que um filho de tantas lágrimas não tinha como se perder de vez. Mônica segurou essa frase como promessa e não largou o assunto por quase vinte anos, mesmo vendo o filho entrar pro maniqueísmo e viver com companheira sem casamento oficial.

O que salta aos olhos, lendo hoje, é a paciência de longuíssimo prazo. Ela não tentou resolver aquilo numa conversa só, nem cortou relação por decepção. Ficou por perto, ano após ano, do jeito que dá pra imaginar uma mãe que continua mandando mensagem no grupo da família, sem cobrar resultado imediato.

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Sobre Santo Agostinho

Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, cidade do norte da África que hoje fica na Argélia. Foi professor de retórica em Cartago, Roma e Milão antes de ser ordenado padre e, em 396, bispo de Hipona, cargo que ocupou até morrer, em 430, durante o cerco da cidade pelos vândalos. Confissões foi escrito por volta do ano 397, já como bispo, olhando pra trás pra própria juventude. Depois desse livro, ele ainda escreveu A Cidade de Deus, uma de suas obras mais influentes, e é considerado um dos principais pensadores do cristianismo ocidental.