O palácio dos duzentos aparelhos em Paris
No final do século dezenove, na refinada avenida dos Campos Elíseos em Paris, residia Jacinto de Thormes, herdeiro de uma das famílias mais aristocráticas e ricas de Portugal. Homem de inteligência aguçada e cultura prodigiosa, Jacinto havia abraçado com fervor quase religioso o dogma supremo da modernidade e da hiper-civilização: o ser humano só é verdadeiramente feliz na proporção direta em que é civilizado.
Para colocar sua tese em prática, o fidalgo transformou seu palacete no número duzentos e dois em um verdadeiro laboratório de vanguarda mecânica. Suas salas eram cortadas por tubos pneumáticos para envio de recados, telégrafos elétricos, elevadores para subir livros da biblioteca monumental, fonógrafos de cilindro, máquinas de escrever e fogões de aquecimento radiante com dezenas de manivelas de latão reluzente.
No entanto, em vez da plenitude prometida pelos catálogos industriais, o que reinava na vida de Jacinto era uma atmosfera asfixiante de complicação e tédio. A cada hora um cano de água estourava, um fio telegráfico entrava em curto-circuito ou uma pilha de milhares de volumes desabava sobre a escrivaninha, exigindo que o proprietário vivesse em constante sobressalto para gerenciar os aparelhos inventados para servi-lo.
