15 minutos
Capa do resumo de As Cidades e as Serras

Ficção · 15 min

As Cidades e as Serras

Eça de Queirós · 1901

Para quem é

Para quem se sente exausto do ritmo frenético das grandes metrópoles, sufocado pelo excesso de telas e parafernálias tecnológicas e busca refletir sobre a verdadeira essência da felicidade humana. É uma leitura primorosa para os amantes dos clássicos da literatura em língua portuguesa.

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3 ideias pra levar

1

O excesso de comodidades materiais tecnologicas cria um fardo de manutencao que rouba o tempo livre e gera tedio.

2

A reconexao fisica com a terra, com a luz do sol e com o alimento natural dissipa as neuroses do confinamento urbano.

3

A felicidade autentica exige usar a tecnica como serva da dignidade humana, nunca como senhora que escraviza a mente.

“
A plenitude nao reside na multiplicidade de aparelhos que acumulamos, mas na sobriedade com que vivemos.
Uma ideia de As Cidades e as Serras, nas palavras do 15 minutos

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O palácio dos duzentos aparelhos em Paris

No final do século dezenove, na refinada avenida dos Campos Elíseos em Paris, residia Jacinto de Thormes, herdeiro de uma das famílias mais aristocráticas e ricas de Portugal. Homem de inteligência aguçada e cultura prodigiosa, Jacinto havia abraçado com fervor quase religioso o dogma supremo da modernidade e da hiper-civilização: o ser humano só é verdadeiramente feliz na proporção direta em que é civilizado.

Para colocar sua tese em prática, o fidalgo transformou seu palacete no número duzentos e dois em um verdadeiro laboratório de vanguarda mecânica. Suas salas eram cortadas por tubos pneumáticos para envio de recados, telégrafos elétricos, elevadores para subir livros da biblioteca monumental, fonógrafos de cilindro, máquinas de escrever e fogões de aquecimento radiante com dezenas de manivelas de latão reluzente.

No entanto, em vez da plenitude prometida pelos catálogos industriais, o que reinava na vida de Jacinto era uma atmosfera asfixiante de complicação e tédio. A cada hora um cano de água estourava, um fio telegráfico entrava em curto-circuito ou uma pilha de milhares de volumes desabava sobre a escrivaninha, exigindo que o proprietário vivesse em constante sobressalto para gerenciar os aparelhos inventados para servi-lo.

A melancolia cinzenta do excesso e da artificialidade

O narrador do romance, José Fernandes, amigo de infância de Jacinto, acompanha com ironia afetuosa a gradual decadência espiritual do fidalgo português no coração da Cidade Luz. Apesar de frequentar os jantares mais exclusivos da alta sociedade, cercar-se de políticos poderosos e ter à disposição os pratos mais sofisticados da gastronomia francesa, Jacinto afunda dia a dia em uma melancolia corrosiva.

A comida dos grandes banquetes parisienses parecia estéril, temperada com molhos pesados que mascaravam a ausência de frescor real dos ingredientes. As conversas nos salões aristocráticos eram vazias de sentimento genuíno, dominadas por fofocas passageiras, intrigas ministeriais e uma vaidade estéril que não aquecia o coração de ninguém.

Essa constatação de Eça de Queirós reverbera com espantosa atualidade na rotina do cidadão moderno. Troque os cabos telegráficos de Jacinto pelas notificações ininterruptas do smartphone e pelos feeds infinitos de vídeos curtos: o resultado humano é rigorosamente o mesmo, uma saturação sensorial extrema acompanhada por um vazio existencial que nenhum objeto de consumo consegue preencher.

A catástrofe providencial na serra portuguesa

A virada na trama ocorre através de um imprevisto aparentemente desastroso. Uma tempestade violenta no norte de Portugal faz desabar parte da capela ancestral da família de Jacinto em Tormes, arruinando os túmulos solenes onde repousavam os ossos dos seus antepassados guerreiros.

Abalado pelo dever filial de trasladar os restos mortais da família para uma nova cripta, Jacinto toma uma decisão que choca o círculo de amigos parisienses: viajar até a remota serra do Douro para supervisionar as obras na propriedade rural que ele nunca havia visitado em toda a sua vida adulta.

Os preparativos para a expedição assumem proporções cômicas. Apavorado com a ideia de passar semanas em um território sem os confortos da metrópole, Jacinto despacha vagões inteiros de trem carregados com toneladas de mobílias luxuosas, caixas de banheiras esmaltadas, aparelhos ortopédicos, vinhos importados e provisões gastronômicas empacotadas.

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Sobre Eça de Queirós

Eça de Queirós foi um dos maiores romancistas da língua portuguesa e o principal expoente do realismo literário em Portugal. Diplomata de carreira, viveu em cidades como Havana, Newcastle e Paris, experiência cosmopolita que aguçou seu olhar irônico e elegante sobre os costumes da sociedade oitocentista. Autor de obras imortais como Os Maias, O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, publicou As Cidades e as Serras postumamente em 1901 como seu testamento filosófico de amor à terra natal.

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Categoria:
Ficção
Faz parte das Jornadas:
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