O julgamento que esperava um monstro e encontrou um funcionário
Em maio de 1960, agentes israelenses capturaram Adolf Eichmann nos arredores de Buenos Aires, onde ele vivia sob nome falso. Conduzido a Jerusalém para responder pelo envio de milhões de judeus aos campos de extermínio na Segunda Guerra Mundial, a opinião pública esperava encontrar no tribunal uma criatura demoníaca, consumida por ódio teatral.
Atrás da cabine de vidro blindado, contudo, a filósofa Hannah Arendt deparou-se com um homem calvo e franzino, cuja fala monótona lembrava a de um funcionário de repartição pública. Não havia nele fúria fanática ou grandeza trágica, mas a mediocridade espantosa de quem apenas cumpria tarefas burocráticas com zelo cego.
Dessa percepção desconcertante nasceu a formulação que marcou a obra: a banalidade do mal. O horror moderno, alertou Arendt, não depende apenas de sádicos patológicos: ele pode ser gerido por pessoas comuns inseridas em uma engrenagem que normalize a destruição e silencie o julgamento ético individual.
