O pavor moderno de sentir qualquer incômodo
Ao menor sinal de dor de cabeça durante o expediente, a mão vai direto à gaveta ou ao bolso atrás de uma cartela de comprimidos. Não toleramos esperar vinte minutos para o corpo se recuperar. Esse hábito corriqueiro expõe uma transformação cultural profunda: desenvolvemos uma verdadeira algofobia, um pavor desmedido de experimentar qualquer desconforto ou atrito na rotina. Nenhum mal-estar é tolerado; tudo precisa ser silenciado com urgência máxima.
Nas grandes cidades brasileiras, entre o aperto do metrô na volta para casa e o barulho do trânsito, o mal-estar virou uma anomalia inaceitável. Byung-Chul Han mostra que a dor física deixou de ser entendida como aviso biológico e virou defeito prejudicial à produtividade, alimentando uma busca constante por alívio rápido a qualquer custo.
Ao tentar blindar o dia a dia contra qualquer atrito, criamos uma existência excessivamente protegida, mas empobrecida. A recusa sistemática do desconforto nos torna frágeis diante do primeiro imprevisto, incapazes de lidar com as frustrações normais da vida real.
