A ilusão de multidão quando estamos sós
Quem abre os aplicativos logo cedo tem a nítida impressão de estar diante de um grande levante popular. Milhares de comentários inflamados se acumulam sob postagens polêmicas e parece que o país inteiro finalmente se uniu para tomar uma atitude. No entanto, ao olhar os passageiros no vagão do trem ou na fila da padaria, o que se vê são pessoas curvadas sobre telas individuais, profundamente isoladas no próprio casulo luminoso.
No século passado, as massas populares se reuniam fisicamente em praças públicas e portões de fábricas, compartilhando um espaço palpável, uma voz unificada e uma sensação de destino comum. No ambiente conectado, o que surge não é uma multidão coesa, mas um enxame digital composto por indivíduos solitários que zumbem na mesma frequência por alguns instantes e logo se dispersam sem criar laços reais de solidariedade.
Cada participante do debate age como uma mônada fechada em si mesma, buscando validação rápida e descarregando frustrações momentâneas em mensagens curtas. Falta a esse conjunto a capacidade de formular projetos coletivos duradouros. O enxame não possui a consistência de um corpo político organizado, servindo mais para espalhar reações barulhentas do que para transformar a realidade concreta fora da tela.
