O paradoxo de um país religioso mas sem compaixão
Basta circular por qualquer periferia brasileira para notar a multiplicação de templos. Em quase toda esquina há portas abertas com cadeiras de plástico, caixa de som e letreiros prometendo milagres. O número de fiéis cresceu rápido nas últimas décadas, mudando o mapa demográfico. No entanto, diante da violência cotidiana e do preconceito, o quadro geral continua alarmante. A conta simplesmente não fecha.
Kivitz aponta que o Brasil viveu intenso trânsito religioso sem passar por revolução ética. Milhões trocaram a missa pelo culto, mantendo velhos hábitos egoístas. O sujeito chora no domingo, mas na segunda-feira fecha o cruzamento no trânsito, assedia a funcionária no escritório, humilha o entregador de aplicativo e vibra com o noticiário policial violento.
A vivência religiosa virou verniz moralista para acalmar a consciência individual, sem exigir transformação nas relações com o próximo. O país ficou estatisticamente mais evangélico, porém permaneceu distante do acolhimento do evangelho.
