A ilusão da casca fina e o mito da nossa maldade
Repare no que passa no noticiário da TV logo após o expediente: crimes, traições e brigas dominam as manchetes. Quem pega a condução lotada ou desce no boteco da esquina cresce acreditando que a sociedade vive por um fio. Aprendemos que a civilização é só uma camada frágil de verniz sobre a nossa verdadeira natureza egoísta e violenta. Rutger Bregman chama essa crença difundida de teoria da casca de verniz.
Essa visão sombria ganhou força com o filósofo Thomas Hobbes no século dezessete, que defendia que o estado natural humano era uma guerra de todos contra todos. Mais tarde, o cinismo virou pose de inteligência nas conversas de trabalho, e quem aposta na decência alheia passou a ser visto como ingênuo ou despreparado para o mundo real.
Mas os registros históricos contam o oposto. Em catástrofes reais, enchentes históricas ou blecautes prolongados, as pessoas não se devoram: dividem mantimentos, resgatam vizinhos e organizam cozinhas comunitárias. O medo de que o próximo seja um monstro à espreita é alimentado pelo catastrofismo da imprensa sensacionalista, e não pela nossa herança biológica.
