O que Bauman quer dizer com líquido
Bauman pega emprestada uma imagem da física para falar de gente. Sólido é o que mantém a forma: uma mesa de madeira continua mesa de madeira ano após ano, mesmo mudando de lugar. Líquido é o que escorre e toma a forma do recipiente onde está: despeje água num copo, ela vira copo; despeje na garrafa, ela vira garrafa. Bauman usa essa imagem pra descrever o que aconteceu com casamento, emprego, amizade e vizinhança no mundo contemporâneo: eles deixaram de ter uma forma fixa e passaram a se adaptar ao contexto do momento, mudando de formato conforme a situação pede.
Numa sociedade sólida, o compromisso vinha embutido: a pessoa entrava no emprego pensando em aposentar pela mesma empresa, casava pensando em não casar de novo, se mudava pra uma rua e ali ficava por décadas. Isso não era necessariamente bom, tinha gente presa em casamento infeliz e emprego sem futuro só porque não existia porta de saída fácil. Mas dava uma sensação de chão firme que hoje ficou mais rara.
Na versão líquida, cada vínculo vem com uma cláusula de saída embutida. A pessoa aceita o emprego sabendo que pode ser mandada embora mês que vem, entra no relacionamento sabendo que qualquer um dos dois pode sair quando quiser, e essa possibilidade constante de desfazer os laços muda a forma como a gente se compromete desde o início.
