1. Uma vida contada por suas portas laterais
Bob Dylan não organiza sua história como uma fila de acontecimentos. Em vez de acompanhar infância, sucesso e maturidade numa sequência certinha, escolhe períodos que iluminam sua formação e suas mudanças. Essa estrutura fragmentária apresenta a memória como uma casa visitada por algumas portas, enquanto outros cômodos continuam fechados ao leitor.
O livro se concentra na chegada a Nova York, na criação de New Morning, nas gravações de Oh Mercy e em lembranças anteriores à fama. A cronologia perde importância diante das associações. Um encontro pode abrir espaço para uma leitura antiga, que depois conduz a determinada escolha musical ou artística.
Isso modifica nossa expectativa de uma autobiografia. Quem procura uma explicação definitiva para cada canção encontrará desvios, atmosferas e silêncios. A proposta mais produtiva é acompanhar como Dylan constrói seu olhar. Como numa conversa demorada de boteco, aquilo que parece uma digressão pode revelar mais do que uma resposta direta.
