A ilusão do resultado e o papel da sorte
A grande tragédia do pensamento humano reside na nossa tendência viciosa de avaliar a qualidade de uma decisão com base unicamente no resultado final que ela produziu. Se alguém dirige em alta velocidade após beber em um boteco e chega ileso em casa, a mente imediatista tende a classificar a escolha como genial ou sem riscos. Da mesma forma, se um médico prescreve o tratamento mais recomendado pela literatura científica e o paciente sofre uma reação alérgica raríssima, muitos o culparão por incompetência.
Annie Duke batiza esse equívoco de 'resulting', ou o vício do resultado. No mundo real, ao contrário de um jogo de xadrez onde todas as peças estão visíveis, as decisões humanas assemelham-se a partidas de pôquer: operamos em um ambiente de informações incompletas governado pela incerteza e pela influência maciça do acaso. Uma decisão excelente pode ter um desfecho ruim por puro azar, assim como uma tolice monumental pode ser salva por um golpe inacreditável de sorte.
Desacoplar a qualidade do processo da qualidade do desfecho é o primeiro passo para a maturidade estratégica. Quando paramos de punir bons processos que deram errado por contingência externa e paramos de premiar irresponsabilidades que deram certo por sorte cega, aprendemos a calibrar escolhas futuras com lucidez, serenidade e honestidade intelectual.
