A promessa do casamento moderno e o peso das expectativas
Historicamente, a instituição matrimonial funcionava como uma aliança prática de sobrevivência econômica, patrimônio e cooperação comunitária. Famílias uniam recursos no comércio ou na lavoura e contavam com parentes e vizinhos para repartir afeto e apoio nas dificuldades. Ninguém esperava que o cônjuge fosse, ao mesmo tempo, parceiro de negócios e amante apaixonado por décadas.
Nos tempos atuais, a monogamia passou por uma profunda virada psicológica. Passamos a depositar sobre uma única pessoa o fardo de atender a tudo o que uma aldeia inteira costumava suprir. Queremos que nosso parceiro seja o melhor amigo, o sócio no orçamento, o confidente dos nossos medos e um amante arrebatador sempre pronto para o romance.
Essa sobrecarga gera uma pressão desmedida sobre a vida a dois. Quando esperamos que a mesma relação forneça solo estável e surpresas permanentes, qualquer período morno é visto como sinal de falência afetiva. A inteligência erótica começa pela percepção lúcida de que nenhum indivíduo consegue saciar todas as nossas carências sem sufocar a convivência.
