A régua móvel da pirâmide e a ilusão da classe média
Pergunte a quem recebe trinta mil reais por mês no Brasil se ele se considera afortunado. A resposta quase sempre será uma negativa convicta, acompanhada pela lista de mensalidades escolares, condomínio fechado e tributos retidos na fonte. Aos olhos desse profissional, a verdadeira abastança mora no andar de cima, no vizinho de carro importado ou no empresário com helicóptero próprio.
Essa relatividade alimenta uma cegueira estatística espantosa. Embora uma remuneração acima de vinte mil reais coloque o cidadão no topo do um por cento mais bem pago da nação, essa parcela prefere se descrever como classe média batalhadora. A régua é empurrada para o infinito: rico de verdade seria apenas quem é dono de iates, jatinhos ou vive de rendimentos perpétuos.
Essa distância imaginária serve de blindagem psicológica confortável. Ao transferir o rótulo de abastado para terceiros, o assalariado do topo se desobriga de refletir sobre o abismo que o separa de quem vive com salário mínimo e enfrenta condução lotada. A abastança nacional vira um jogo de espelhos, no qual ninguém admite ocupar o topo da pirâmide social.
