A miragem do conhecimento absoluto pelos números
Vivemos cercados por uma crença quase religiosa de que reunir quantidades monumentais de dados digitais resolverá todos os enigmas da existência humana. De decisões corporativas sobre vendas até diagnósticos médicos e escolhas eleitorais, a narrativa hegemônica promete que algoritmos alimentados por terabytes de registros são capazes de antecipar nossos desejos mais íntimos antes mesmo de nos darmos conta deles.
Timandra Harkness desconstrói esse entusiasmo desmedido mostrando que dados não passam de representações simplificadas e imperfeitas da realidade viva. Quando transformamos pessoas de carne e osso em sequências de cliques, coordenadas de satélite e históricos de compras no cartão, capturamos apenas a casca externa de suas escolhas, perdendo completamente os motivos internos, as dúvidas morais e os sentimentos que guiaram aquelas ações.
A fascinação moderna pelo tamanho colossal dos arquivos digitais tende a ocultar uma verdade desconfortável: mais informações desordenadas não geram automaticamente maior sabedoria prática. Sem discernimento crítico e sem perguntas bem formuladas, o oceano de métricas acaba servindo apenas para justificar preconceitos prévios com uma roupagem de infalibilidade científica.
