1. Uma vida organizada para ensinar
Benjamin Franklin começa sua autobiografia dirigindo-se ao filho, como quem abre uma conversa sobre as origens da família. Logo, porém, a lembrança pessoal ganha outra função: mostrar como um jovem sem grande patrimônio construiu conhecimento, prestígio e influência. O livro apresenta uma vida interpretada pelo próprio protagonista, não um retrato neutro.
A escrita começou em 1771, foi interrompida e retomada em diferentes momentos. Franklin morreu em 1790, deixando o relato inacabado, com a narrativa concentrada até 1757. A primeira publicação apareceu em francês, em 1791. Portanto, suas atuações posteriores na independência e na diplomacia não recebem aqui o desenvolvimento que muitos leitores esperam.
Essa moldura ajuda a perceber a seleção das lembranças. Franklin destaca dificuldades que conseguiu superar e decisões que parecem explicar seu sucesso. Existe aprendizado nisso, mas também construção de imagem. Como acontece quando alguém conta sua trajetória numa entrevista de emprego, os episódios escolhidos favorecem determinada interpretação de quem está falando.
