1. Uma presença construída contra o apagamento
Ainda Estou Aqui acompanha uma família atingida pela violência política, mas encontra seu centro na trajetória de Eunice Paiva. Marcelo Rubens Paiva escreve como filho, participante e investigador de uma história incompleta. Sua mãe aparece para além da condição de esposa de um desaparecido: ela pensa, trabalha, transforma relações e envelhece.
O livro aproxima duas experiências diferentes de perda: o desaparecimento do pai, Rubens Paiva, durante a ditadura, e o avanço do Alzheimer da mãe. A aproximação é literária, não uma equivalência entre doença e crime. Em ambas, porém, o narrador enfrenta presenças que deixam de estar disponíveis como antes estavam.
A memória autobiográfica organiza esse percurso sem obedecer a uma linha reta. Recordações da infância convivem com informações descobertas depois e com cenas do envelhecimento materno. Como numa conversa de família que começa no almoço e termina numa caixa de fotografias, cada lembrança abre outra pergunta, em vez de encerrar o assunto.
